Domingo, 5 de Outubro de 2008

Blindness - the film

Um escritor que utiliza com frequência a metáfora (substituição da palavra adequada por outra, com base numa comparação implícita) e a alegoria (sucessão de metáforas e/ou comparações através das quais realidades abstractas são concretizadas) estará, mais exposto a críticas, muitas vezes levianas, seja a propósito dos seus livros, seja como reacção ao filme recentemente estreado nos Estados Unidos e que teremos oportunidade de ver nos nossos cinemas em Novembro.
Que uma Federação de Cegos (Estados Unidos) queira que o filme de Fernando Meirelles sobre o Ensaio sobre a Cegueira seja retirado das salas de cinema, não é mais do que o reflexo duma sociedade vulnerável ao fundamentalismo literário, religioso, político… Com todo o respeito pelas pessoas cegas não concordamos que o director executivo daquela Federação entenda que, quer o livro, quer o filme “ retratam os cegos como incapazes de fazer seja o que for, até como viciados e criminosos”. Recorde-se que em 1998 foram vendidos pacificamente quinhentos mil exemplares nos Estados Unidos.
Achamos que a cegueira enquanto metáfora, passados dez anos, encaixa possivelmente ainda melhor na realidade deste nosso mundo.
O livro narra a história de um grupo de pessoas – sem nome – que vivem numa cidade – também sem nome - que é atingida por uma epidemia de cegueira branca. São encaminhadas para um abrigo, isoladas em grupos, onde ficam de quarentena, lutando para sobreviver num espaço onde a comida é o bem mais precioso. No meio do caos generalizado, apenas uma mulher não é infectada. Cabe a ela tentar perceber o que se passa e encontrar uma saída.
Tal como no filme A Cidade de Deus, também de Fernando Meireles, Blindness não é um filme agradável à vista. É que, a realidade levada ao extremo incomoda muito mais do que viver no faz de conta.
O Ensaio sobre a Cegueira fala da condição humana. Conforme B. Berrini escrevia em 1997, o ensaio retrata o egoísmo humano levado ao extremo quando está em causa a luta pela sobrevivência. No entanto, o livro apresenta uma realidade despida de ilusões mas não desprovida de esperança. A mulher do médico (que não cegara) representa o respeito, o serviço ao outro, a generosidade sem limites, a valorização do essencial, a possibilidade da solidariedade mesmo num mundo que parece irrecuperável.
De facto Saramago não é um escritor fácil. E não é por acaso que alguns dos seus romances se chamem Ensaios.
Recordemos o final do livro. A mulher do médico pergunta porque foi que cegaram. Talvez um dia se chegue a saber – responde ele. E acrescenta: “ penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”
 

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publicado por tpf às 00:12
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